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nada está escrito

O nada é tudo o que enche um vazio abissal.O silencio engolido pela vontade de gritar. Um pensamento que se perde antes de ser entendido. Escrevo...para para preencher vazios...onde ainda cabem as palavras [ as minhas].

o que doía a um, doía a outro

25.03.24 | nada está escrito

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Olhe, um homem habitua-se, moro aqui com a Lua, que é uma rafeira que me apareceu há uns 4 anos e decidiu ficar…no princípio, não me deixava dormir, punha-se a uivar à noite, era um desassossego, mas, vá-se lá saber como, a cadela deixou de uivar, depois de eu lhe ter posto o nome, naturalmente estava só a dizer-me como queria ser chamada…Faz-me muita companhia, só me rala o que vai ser feito dela, quando eu já cá não estiver, não queria nada que ela ficasse para aí abandonada, já não tem idade para começar uma vida nova, tal como eu…
 
De vez em quando, os filhos telefonam ou chega alguém da França, que me vai dando notícias. Ficaram por lá, estão melhores do que aqui, os netos mal falam a nossa língua, vieram cá uma vez e era uma algaraviada, que eu me costumava a entendê-los, mas é a vida, esta terra é madrasta e como é que eu podia amarrá-los aqui?
 
O pior foi para a minha Lucinda, ela nunca mais foi a mesma, às vezes dava com ela, ensimesmada, no quarto dos rapazes, sempre a limpá-lo, como se estivesse à espera que eles chegassem, custou-lhe muito, sabe que uma mãe sem os filhos é assim como raízes sem árvore, não se sabe o que é que são. E depois, ela ficou doente e eu fingia que não era nada de cuidado e dava por mim a chorar às escondidas, mas mentia-lhe, não é ? Em 40 anos de casados, foi a única vez que a enganei…
 
Ás vezes, parece que a ouço chamar-me, parece que ela está aqui sentada ao pé de mim, eu falo muito com ela e digo-lhe que não me esqueci das flores… se as flores dela morressem, eu parece que me tinha esquecido dela, era como se ela me morresse outra vez…Foram muitos anos, sempre os dois, o que doía a um, doía a outro, sabe, um homem fica assim meio estranho, é como se andasse e não fizesse sombra…
 
Para limpar a cabeça, vou fazendo umas coisas, nada de mais, umas couves, um feijão, semeio umas batatas, só para mim não é preciso muito e vou criando uns franguitos, uns coelhos, às vezes vendo um ou outro, que a reforma que me calhou não dá para mais…agora trabalhar, já não, parece que a geada ficou-me pegada às mãos, não vê, quase que não as consigo abrir, vá lá que ainda vou segurando o cajado. ..E sabe, as pernas também já não me obedecem, eu quero ir dar uma volta, ver os rapazes da minha criação, beber um copito, jogar à sueca e elas teimam em querer que eu fique sentado aqui, neste banco… olhe, vou falando com a Lua, com as àrvores…Está a ver aquela ali, assim, frondosa ? Plantei-a quando me casei, já faz parte da casa, nem imagino este bocado de terra sem ela, de manhã, quando me levanto, é a primeira coisa que eu vejo, só gosto de dormir a sesta, encostado naquele tronco, é o único sítio onde o sono me sabe bem, porque, de noite, menina, é só matar horas…
 
Lá está ele, sentado, com a Lua deitada aos pés, a olhar o sol que vai adormecendo…guardião do monte, velho guerreiro, que revolveu o campo com a pá e o ancinho, armas de uma vida, mãos gastas de tanto semear e de tão pouco colher e com um coração maior do que o bocado de terra a que toda a vida pertenceu.
 
 
 

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